Construção Civil
Fim da escala 6x1 na construção civil: a PEC chegou ao Senado
A proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada semanal de trabalho entrou na reta final no Congresso. Depois de aprovada pela Câmara dos Deputados em maio, a PEC 221/2019 passou pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em 2 de setembro e, em 6 de outubro de 2026, teve início a primeira das cinco sessões de discussão exigidas no Plenário antes da votação em primeiro turno. Para a construção civil, setor intensivo em mão de obra e que trabalha com cronogramas longos, o tema merece atenção desde já, mas sem antecipar mudanças que ainda não existem.
O que diz o texto em discussão
Segundo reportagens que acompanharam a tramitação, o texto aprovado na Câmara (por 472 a 22 votos no primeiro turno e 461 a 19 no segundo) e mantido pelo relator na CCJ do Senado, senador Omar Aziz, prevê:
- redução da jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, com limite de 8 horas diárias;
- dois dias de descanso semanal remunerado, preferencialmente um deles aos domingos;
- proibição de redução salarial em razão da nova jornada;
- transição em duas etapas: 42 horas semanais dois meses após a promulgação e 40 horas um ano depois;
- possibilidade de acordos e convenções coletivas tratarem da compensação de horários;
- previsão de lei complementar com medidas transitórias para microempreendedores, microempresas e empresas de pequeno porte, condicionadas à manutenção de empregos.
A reportagem publicada em 6 de outubro também menciona prazo de até 12 meses para adaptação de contratos da administração pública.
Atenção: a mudança ainda não está em vigor
É importante ser preciso: a PEC ainda não foi aprovada pelo Senado. Uma emenda constitucional precisa de pelo menos 49 dos 81 votos dos senadores, em dois turnos. Se o texto for aprovado sem alterações de conteúdo, segue para promulgação, sem necessidade de sanção presidencial. Se houver mudança, volta para a Câmara. De acordo com a imprensa, a data da votação ainda dependia de acordo entre as lideranças partidárias. Por isso, nenhuma empresa é obrigada, hoje, a alterar a jornada dos seus empregados com base nessa proposta.
Por que a construção civil acompanha de perto
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) divulgou estimativas próprias sobre o impacto da medida no setor, entre elas a necessidade de cerca de 288 mil trabalhadores adicionais para manter o nível atual de atividade e um custo extra estimado em R$ 13,5 bilhões por ano. A entidade afirma não ser contrária à redução da jornada, mas defende um debate técnico que considere as particularidades das obras e dos contratos de longo prazo. São números de uma entidade representativa do setor, com metodologia não detalhada nas publicações, e devem ser lidos como projeções.
Independentemente dos números, há efeitos práticos fáceis de visualizar em um canteiro:
- Cronograma: com menos horas por semana por trabalhador, a mesma etapa da obra pode exigir mais gente ou mais tempo.
- Custo de mão de obra: sem redução salarial, o custo por hora trabalhada sobe, o que afeta orçamentos já fechados.
- Escalas e turnos: obras que funcionam aos sábados precisarão rever a organização das equipes para garantir dois dias de descanso.
- Subempreiteiros: empreiteiras menores também serão afetadas, e eventuais pedidos de revisão de preço podem chegar à construtora contratante.
Contratos de obra e reequilíbrio
Um ponto sensível é o dos contratos já assinados. Em obras públicas, a legislação de licitações admite a recomposição do equilíbrio econômico-financeiro quando fatos posteriores e imprevisíveis alteram os custos do contrato, e a própria CBIC aponta a possibilidade de prorrogações e pedidos de reequilíbrio caso a mudança seja aprovada. Em contratos privados, tudo depende do que foi pactuado: cláusulas de reajuste, de alteração legislativa, de prazo e de preço global ou por medição fazem diferença. Ainda não é possível dizer como cada contrato será afetado, porque o texto final e a data de vigência não estão definidos.
Checklist para se preparar sem precipitação
- Mapear quantos empregados trabalham hoje em escala 6x1 ou com jornada acima de 40 horas, por obra.
- Verificar o que a convenção coletiva aplicável já prevê sobre compensação e jornadas diferenciadas.
- Simular o impacto de 42 e de 40 horas semanais no custo e no cronograma das obras em andamento.
- Revisar contratos com clientes e subempreiteiros: há cláusula sobre alteração de legislação trabalhista? Como funciona o reajuste?
- Em novas propostas comerciais e licitações, registrar as premissas de jornada usadas na formação do preço.
- Acompanhar a votação no Senado e o texto que for efetivamente promulgado antes de alterar qualquer rotina.
Quando buscar orientação jurídica
Vale envolver a assessoria jurídica quando a empresa tiver contratos de longo prazo em execução, obras públicas, grande volume de terceirização ou acordos coletivos próprios. A análise antecipada ajuda a identificar quais contratos têm base para revisão, quais exigem negociação e como documentar a mudança de custos, caso a PEC seja aprovada. Também é recomendável revisar modelos de contrato para novas obras, incluindo cláusulas claras sobre alterações legislativas.
Fontes consultadas: Tribuna do Sertão (Agência O Globo), Diário do Grande ABC e Agência CBIC.
Para analisar a situação da sua empresa, o escritório pode ajudar.
Perguntas frequentes
A jornada de 40 horas já vale para as construtoras?
Não. A PEC 221/2019 ainda precisa ser aprovada pelo Plenário do Senado em dois turnos e promulgada. Até lá, valem as regras atuais.
Se aprovada, a mudança será imediata?
Pelo texto em discussão, não. A jornada cairia para 42 horas dois meses após a promulgação e para 40 horas um ano depois.
Contratos de obra já assinados podem ser revistos?
Depende do tipo de contrato e das cláusulas pactuadas. Em obras públicas, a lei admite o reequilíbrio econômico-financeiro em hipóteses específicas; em contratos privados, é preciso analisar caso a caso.
Fontes
- Tribuna do Sertão (Agência O Globo) – Fim da escala 6x1 chega ao Plenário do Senado
- Diário do Grande ABC – CCJ do Senado aprova fim da escala 6x1 e PEC segue para Plenário
- Agência CBIC – Redução da jornada de trabalho: CBIC intensifica diálogo e defende debate técnico no Senado
- Sinduscon-PR (CBIC) – Redução da jornada exige debate técnico, fora da agenda eleitoral
